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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Sejamos machos: falemos do medo de avião

Texto excelente do Gabo!
Por Gabriel García Márquez
O único medo que nós, latinos, confessamos sem vergonha e até com um certo orgulho machista é o medo de avião. Talvez porque seja um medo diferente, que não existe desde nossas origens, como o medo do escuro ou o próprio medo de que se perceba que sentimos medo. Pelo contrário: o medo de avião é o mais recente de todos, pois só existe a partir do momento que se inventou a ciência de voar, há apenas 77 anos. Eu padeço dele como ninguém, com muita honra, e além disso com uma gratidão imensa, porque graças a ele pude dar a volta ao mundo em 82 horas, a bordo de todo tipo de aviões, e pelo menos dez vezes. Não; ao contrário de outros medos que são atávicos ou congênitos, o de avião se aprende. Lembro com nostalgia os vôos líricos da época do segundo grau, naqueles aviões de bimotores que viajavam entre os pásaros, espantando vacas, assustando as florzinhas amarelas do campo com o vento de suas hélices, e que às vezes se perdiam para sempre entre as nuvens, se espatifavam e era preciso sair à meia-noite buscar suas cinzas do modo mais natural: no lombo de uma mula.
Uma vez, sendo repórter de um jornal de Bogotá, numa época irreal em que todo mundo tinha 20 anos, me mandaram, com o fotógrafo Guillermo Sánchez, perseguir uma má notícia em um daqueles Catalinas anfíbios que tinham sobrado da guerra. Voávamos sobre a selva de Urabá sentados em cima de sacos de vassoura, porque assentos não havia naquele sepulcro voador, nem uma aeromoça de consolação a quem pedir o número do telefone no paraíso, e logo o avião se meteu por onde não era e se extraviou em um aguaceiro bíblico. Não só chovia fora, como também dentro. Agarrando-se a duras penas, o co-piloto nos levou um jornal para que cobríssemos a cabeça e vimos, com assombro, que mal podia falar e que suas mãos tremiam.
Esse dia aprendi algo muito alentador: os pilotos também sentem medo, só que neles, como nos toureiros, não se nota tanto no tremor das mãos quanto nas superstições. Um amigo espanhol –tão temeroso de avião que nunca viajava sentado– descobriu isso numa noite ruim de inverno em que o convidaram a presenciar a decolagem na cabine de comando. Era em Nova York, durante uma tempestade de neve, e a tripulação permaneceu muito serena na cabeça da pista, até que deram a ordem de decolar. Então, como se fosse um requisito técnico imprescindível, todos fizeram o sinal da cruz ao mesmo tempo. Meu amigo, compreendendo que, no fundo da alma, também os pilotos têm medo, perdeu para sempre o medo de avião.
Eu tive uma prova ainda mais sutil voando entre as estrelas sobre o oceano Atlêntico. Falando de tudo, perguntei ao comandante por outro piloto amigo que havia sido meu companheiro de escola. Eu ignorava, claro, que ele havia se espatifado no aeroporto de Tenerife quando tentava aterrissar no meio de uma borrasca. O comandante me contou de outra maneira, mais reveladora:
–Se retirou da companhia faz três anos, nas ilhas Canárias.
No entanto, o bom medo de avião não tem nada a ver com as catástrofes aéreas. Picasso disse muito bem: “Não tenho medo da morte, e sim do avião”. Digo mais: muitos medrosos perderam o medo de avião depois que sobreviveram a um desastre. Eu o contraí como uma infecção incurável voando à meia-noite de Miami a Nova York, em um dos primeiro aviões a jato. O tempo era perfeito e o avião parecia imóvel no céu, levando a seu lado essa estrela solitária que acompanha sempre os bons aviões, e eu a contemplava pela janela com a mesma ternura com que Saint-Exupéry via as fogueiras do deserto do seu avião de alumínio. Então, na lucidez da vigília, tive a consciência da impossibilidade física de um avião se sustentar no ar, e jurei a mim mesmo nunca mais voar.
Cumpri a promessa durante dez anos, até que a vida me ensinou que o verdadeiro medroso de avião não é o que se nega a voar, mas o que aprende a voar com medo. É uma espécie de fascinação. De todos os temerosos célebres que conheço, o único que não voa de jeito nenhum é o arquiteto Oscar Niemeyer. Já o seu compatriota Jorge Amado, que é um timorato aéreo dos grandes, teve a audácia poética de voar em um Concorde de Paris até Nova York, para ali pegar um navio até o Rio de Janeiro. O escritor venezuelano Miguel Otero Silva e o diretor de cinema brasileiro Ruy Guerra, por diferentes caminhos, chegaram à conclusão que a única maneira de combater o medo de avião é voando com medo, e o combatem quase todos os meses. Carlos Fuentes, que não voou durante quinze anos e fazia umas viagens épicas de oito dias, mudando de trens, do México até Nova York, não só voltou a voar como, na semana passada, foi fazer uma conferência na Universidade de Indiana em uma avioneta monomotor. Não há, porém, entre os grandes especialistas do medo de avião, nenhum melhor que dom Luis Buñuel, que aos 80 anos continua voando impávido, mas morto de medo. Para ele, o verdadeiro terror começa quando tudo está perfeito no vôo, e, de repente, aparece o comandante em mangas de camisa e recorre a aeronave em passos lentos, saudando cada um dos passageiros com um sorriso radiante.
Minha mãe não voou mais que duas vezes em sua longa vida. Nunca sentiu medo, mas conhece muito bem o de seus filhos –que são doze–, de modo que mantém sempre uma vela acesa no altar doméstico para proteger a qualquer um de nós que esteja no ar. Sua fé é tão grande, que faz pouco tempo a escavadeira de um de seus filhos –engenheiro civil– caiu numa vala. Minha mãe ouviu falar que o resgate podia custar mais de 100 mil pesos, e disse a meu irmão que não gastasse nem um centavo, pois ela ia acender uma vela para tirar a escavadeira do buraco. Meu irmão a repreendeu: “Só mesmo a senhora para achar que uma vela pode tirar uma escavadeira de uma vala”. Minha mãe, impassível, lhe respondeu:
–Como que não pode tirar, se consegue segurar um avião no ar!

domingo, 15 de junho de 2014

Você é aleijado de quê?

Há pouco tempo assisti o filme "Intocáveis", muito bem recebido pela crítica e pelo público. Uma resenha breve: 






"Philippe (François Cluzet) é um aristocrata rico que, após sofrer um grave acidente, fica tetraplégico. Precisando de um assistente, ele decide contratar Driss (Omar Sy), um jovem problemático que não tem a menor experiência em cuidar de pessoas no seu estado. Aos poucos ele aprende a função, apesar das diversas gafes que comete. Philippe, por sua vez, se afeiçoa cada vez mais a Driss por ele não tratá-lo como um pobre coitado. Aos poucos a amizade entre eles se estabele, com cada um conhecendo melhor o mundo do outro." Fonte: Adoro Cinema

Bom, mas o meu raciocínio ocorre aqui em cima de uma frase que Philippe diz a Driss a respeito de sua primeira mulher. Ele diz que ele não é aleijado por causa de sua tetraplegia, mas por causa da perda de sua esposa. Que amor! 

Então eu fiquei pensando que todos nós somos um pouco "aleijados". Aliás, a definição de aleijado no português de Portugal (a origem da nossa língua) pode ser "ferido" ou "magoado".  Sábia língua portuguesa! Minha primeira pergunta a mim mesma foi: do que eu estou me aleijando?

O que eu gostaria de fazer e estou me privando? 

Conheço pessoas que têm tudo, mas são completamente aleijadas de satisfação, de gratidão, nada está bom!

Conheço pessoas que não têm problemas, mas que gostam de inventar motivos para sofrer e se preocupar. Eu andei fazendo isso há uns tempos atrás e agora estou procurando reverter esse processo.

Conheço pessoas que se aleijaram da vaidade, mas não da vaidade fútil, e sim daquele cuidado essencial que traduz o amor próprio. Descuidaram da aparência, esquecendo-se que a forma como cuidamos do corpo - veículo do espírito enquanto estamos na Terra - reflete a nossa condição interior.

Conheço pessoas que, buscando desenfreadamente o prazer e a satisfação dos sentidos, aleijam-se da paz, que só é possível quando existe o equilíbrio.

Conheço pessoas que se aleijaram de uma boa convivência com as pessoas que as cercam, pois cultivam comportamentos egoístas/agressivos/críticos e não conseguem ter jogo de cintura para compreender que o mundo não tem a função de lhes agradar (acho que aqui todo mundo se identifica um pouco, mas esse comportamento adotado repetidamente dificulta muito a vida!).

Conheço pessoas que se aleijaram de viver seus sonhos. Prendem-se por medo ou comodismo em suas vidas diárias, sem arriscar, sem tentar, sem saírem de seus mundos e de si mesmas. A frase "A vida começa no final de sua zona de conforto." (Neale Donald Walsch) é uma inspiração! Ousar é necessário!

Conheço pessoas cheias de potencial, mas que se prendem nas amarras da preguiça e sempre inventam desculpas para não sair do lugar! Acho que todo mundo tem suas "desculpas" para não fazer o que é preciso, de vez em quando.

Conheço pessoas que deixam de viver, de ter momentos de lazer, de viajar, talvez por não se acharem merecedoras. Infelizmente tem gente que vive só pra trabalhar sem tempo de ser feliz!

Enfim, vejo pessoas que se aleijam de amor, sonhos, paz, empatia, saúde, equilíbrio, alegria, amizade, contentamento...cabe uma autoanálise, não?

domingo, 8 de junho de 2014

Viajar pra quê?


Embora nunca tenham dito na minha cara, sei que tem gente que pensa que os viajantes querem fugir dos problemas...

Quem AMA viajar sabe que não é bem assim. Os problemas não desaparecem quando se está viajando. Aliás, se estiver sozinho, a tendência é que, em algum momento, no saguão do aeroporto, no quarto à noite, tomando um banho - as angústias, medos e dúvidas vão aparecer para te assombrar. Seguindo essa linha, viajar pode funcionar como um reencontro consigo mesmo e não uma fuga.

Eu, particularmente, uso todos os momentos de solidão com as angústias e dúvidas para tentar me entender um pouco mais e, talvez, tentar solucionar algumas questões.

Outra coisa interessante que acontece quando se viaja são as inevitáveis comparações com o próprio povo/cultura (ou até com sua cidade ou Estado) e a conclusão é sempre haverá a diferença! A simplicidade nos fará pensar sobre as necessidades reais e aquelas que criamos. A pobreza talvez no faça agradecer pelo que conquistamos (e perceber que, com todos os seus defeitos, o Brasil ainda é muito bom), a riqueza pode mostrar tanto a futilidade, quanto a cultura e a arrogância. Tudo é novo, tudo é ensinamento.

Provavelmente vai surgir aquele incômodo gerado pela diferença, aquele que tentamos negar, porque temos a cabeça aberta para ver a miséria e se abalar no nível certo. Aceitar a diferença não significa gostar dela. A nossa cabeça pode não ser tão aberta quanto imaginamos. Ainda há muito o que aprender, muito a melhorar, tanto em nível pessoal, quanto mundial. 

O fato é que as viagens são um pouco como a vida de forma acelerada: guardam boas e más surpresas, pessoas que gostamos e que não gostamos. Lugares que adoramos e aqueles para os quais não voltaríamos, sorrisos, gargalhadas, lágrimas, tristeza...

Escolher o destino não é definir o que vai acontecer na viagem, é apenas dar o primeiro passo! Vamos?

domingo, 12 de janeiro de 2014

Sobre asas e raízes

Há alguns anos conheci uma senhora peculiar. Ela ficava o dia todo em frente à TV  e, de vez em quando, conversava com o cachorro. Embora tivesse uma pensão razoável do falecido marido e nenhuma preocupação, já que os filhos estavam criados, ela se deixava ficar ali, dia após dia, saindo de casa apenas para afazeres inevitáveis (banco, farmácia, mercado, etc).  Ela se enterrara viva.

Por outro lado, há pouco tempo conheci um casal de alemães viajando pela América do Sul. Apesar de seus 70 e poucos anos (se não era mais) sacolejaram dois dias inteiros dentro de jipe, sem reclamar, para irem do Atacama ao Salar de Uyunni , na Bolívia. Eu olhava para eles, sem banho, com pouca comida e cheios de pó e pensava em quanto eu sou mole, rsrsr.

Esse mesmo casal alemão me contou uma história interessante com um grande ensinamento: Eu suas perambulações pela America do Sul, quando estavam na nossa Foz do Iguaçu, conheceram um homem que estava viajando pelo mundo há muitos anos (ele viajava sem parar há 19 anos, se não me engano) e notaram nele algo de anormal, algo de mais anormal do que essa loucura inerentemente humana que todos temos, ou seja, observaram que havia mesmo algum tipo de perturbação. Ele parecia ter perdido um pouco o senso de realidade, a ponto de que até mesmo pessoas estranhas o notassem.  E então, fecharam a história com o tal ensinamento: “é tão importante ter asas, quanto raízes”. É por isso que amo viajar! Ouvi essa história sentada numa mesa de sal em um hotel feito todinho de sal na Bolívia, tomando um vinho delicioso, enquanto o vento soprava lá fora e fazia facilmente uns 7 graus.



Mas voltando à moral da coisa toda: ao contrário da senhora no começo do texto, o viajante compulsivo havia se jogado no mundo sem destino e sem porquê. Enquanto um havia se enterrado em sua vidinha cotidiana, o outro sequer tinha rotina. Como sempre, a resposta para tudo é o equilíbrio!  Tanto a senhora que não sai da frente da TV, quanto o viajante inveterado têm problemas de equilíbrio. É preciso ousar, de vez em quando, assim como o recolhimento também é importante para o refazimento das energias e das forças físicas.


É maravilhoso viajar, conhecer novas culturas, mas é bom, inclusive durante a viagem, lembrar do lar e voltar para a casa, com histórias e fotografias! Mesmo minha vontade de viajar o mundo não supera o amor pela minha casa e minha família!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Sobre viagens e desafios

Olha a cara de "tira logo essa foto" rsrs, em Bonito
Sempre que digo que viajo sozinha, as pessoas perguntam “você não tem medo?”. Antigamente eu costumava responder que não, quando na verdade eu morria de medo. Não era minha intenção mentir, mas provavelmente fortalecer a mim mesma, ou seja, eu não admitia, nem para  mim, que tinha medo.  Hoje eu admito: sempre dá um medinho...

No começo eu fiquei mesmo foi apavorada! Eu estava saindo de uma fase difícil em que tive crises de pânico, inclusive de avião. Minha primeira viagem solo foi um marco. O destino escolhido foi Bonito-MS. Sim, pensei em desistir. Sempre me considerei corajosa, mas por outro lado, sempre tive umas minhocas na cabeça, de achar que coisas ruins aconteceriam comigo (porque algumas realmente aconteceram). Quando eu entrei no avião para essa primeira viagem solo e não tive medo na decolagem, até chorei. Ainda fiz uma conexão em Curitiba, antes de ir para Campo Grande. Claro que eu me cerquei de garantias. Reservei o Hostel (também nunca tinha ficado em um e adorei!) e o transfer do aeroporto de Campo Grande para Bonito. Até os passeios reservei antes e deixei pago. Isso foi num feriado de Corpus Christi.

Logo na primeira noite, no hostel, fiz varias amizades e, pouco depois de ter chegado à cidade, lá estava eu: no barzinho com meus novos amigos, brasileiros de todos os lugares. Todos os dias fiz passeios incríveis e conheci pessoas maravilhosas, que fazem parte da minha vida até hoje. Uma dessas amigas, a Eliane, tornou-se companheira de outras viagens. Uma outra coisa interessante é que passei muito frio em Bonito! Passar frio num lugar onde as pessoas costumam morrer de calor é uma dessas coisas genuinamente maravilhosas que acontecem nas viagens. Tinha levado só dois casaquinhos e os usava o dia todo e inclusive para dormir! Rsrs. Isso me fez perceber que, na verdade, a gente precisa de bem pouco pra viver!
A viagem terminou e foi simplesmente incrível! Me senti totalmente abençoada pela oportunidade.

O medo passou? Claro que não! E por isso e apesar disso eu resolvi continuar viajando.  Minha segunda viagem solo foi para Santiago do Chile. Meu maior medo, além do avião cair, claro, era ficar sozinha. Eu até gosto de ficar sozinha, ou achava que gostava, mas rolava um medinho de, na hora h, em que eu estivesse mesmo só, iria odiar. Bom, as duas melhores partes: não, eu não odiei e, na verdade, fiquei bem pouco tempo sozinha. Conheci uma nova amiga ainda na conexão em Montevidéo, a Maria. Acabei mudando de hostel para ficarmos juntas, já que ela havia pago a reserva e eu não. Foi ótimo, fizemos tudo juntas e eu não deixei de valorizar alguns momentos de solidão ou valorizar ainda mais esses momentos...

No mercado de Santiago
Uma coisa interessante aconteceu no voo de volta da conexão de Montevideo para São Paulo. Estava voando com a falecida Pluna (companhia uruguaia). Faltando uns 40 minutos para pousarmos em Guarulhos, o piloto avisa que teríamos que voltar para Montevideo, em razão de um “problema técnico” no avião. Esse é tipo de situação que você para e pensa: estou tendo um pesadelo, isso não está acontecendo. Mas estava. E nessa hora eu pensei, como outros devem ter pensado, que havia mesmo um problema técnico e que o avião iria cair. Rezei. Pedi a Deus que, se fosse o caso, me acolhesse da melhor forma. E também pensei na diferença entre o aeroporto de Montevideo e o de Guarulhos, a única era que em Montevideo havia o mar Del Plata. Talvez fossemos pousar na água e eu descobriria se os assentos realmente flutuam, rsrs. O mais interessante é que, com tudo isso, eu não perdi a calma um instante sequer. No fundo, a gente não acha que vai mesmo morrer. Cheguei a perguntar para a comissária com toda a calma do mundo se o problema técnico nos impediria de pousar (ou seja: vamos morrer?).  Ela me assegurou que não, que estava tudo bem, mas eu tinha total consciência que talvez nem ela soubesse o que estava dizendo. Enfim, o grande “problema técnico” eram uns 6 coreanos que estavam no voo e, por alguma razão que desconhecemos, não tinham autorização para pousar em Guarulhos. Incompetência de Pluna que, aliás, não forneceu informações, nem refeições, nem nada, só uns amendoins e um copo d’água, inclusive para as mulheres grávidas e crianças do voo. Alguma tempo depois, a companhia faliu...dá pra entender o porquê
O fato é que eu desembarquei vivinha da silva, não às 22:00 hrs, mas às 2:00 da manhã, em Guarulhos. Exausta, mas feliz!

A terceira viagem solo foi para o Peru. Eu estava de novo com medo de tudo. Reservei hospedagem e passeios em Machu Picchu. Chegando ao aeroporto, peguei um taxi e fui para o hostel. Cheguei querendo fazer amizades, mas dessa vez não foi tão fácil. Era um hostel grande, o que dificulta um pouco o contato com as pessoas. Havia um grupo grande de brasileiros, mas todos em um congresso de arquitetura, ou seja: eu não tinha nada em comum com eles. Detalhe: eu falo bem o inglês e me viro no espanhol, mas confesso que ainda tenho esse tabu de fazer amizade com gringos. Outro desafio que preciso vencer. Depois de alguns dias, conheci uns brasileiros e fui pra Machu Picchu com eles, mas não fiquei grudada em ninguém e, quer saber? Foi bem legal também. Andar sozinha pelas ruas de Cusco foi uma bênção!

Numa das cidades em que fiquei, Puno, fui roubada no hotel (tiraram 100 soles da minha carteira enquanto tomava café da manhã) e, além disso, fiquei bem doente. Às vezes, as viagens têm coisas chatas. Peguei uma virose que soltou meu intestino e minha pressão caiu, eu mal ficava em pé! Aliás, era pra eu ter conhecido um cemitério inca, mas eu precisei ficar dormindo na Van. No fim daquele dia, passei umas três horas na rodoviária de Puno, esperando o ônibus para voltar a Cusco. Foram as três horas mais longas da minha vida, rsrs! Comprei duas mantas, pois tremia de frio e febre. Me enrolei toda e dormi pesado no ônibus. Quando cheguei a Cusco, a febre havia passado. Mais uma lição eu aprendi nessa viagem: a gente pode não gostar de todo lugar que conhece. Cidades são como pessoas, algumas a gente se dá bem logo de cara, outras a gente não topa! Rsrs. Detestei Puno!
A viagem terminou e, mesmo controlando o pânico da volta (talvez um mini trauma por causa daquele voo da Pluna), deu tudo certo de novo!

Dispensa apresentações..rsrs


Depois disso, viajei solo para Maceió e foi novamente maravilhoso. Fiz muitos amigos. Não vou contar todos os detalhes de novo, o texto já está longo! E também fui para Punta Del Este, essa foi a viagem mais solitária que fiz e gostei bastante! Aprendi mais sobre mim mesma nessas viagens, inclusive que adoro estar só! Conheci ainda o Atacama, uma viagem inesquecível e quase espiritual para mim.

Para terminar, vou falar da viagem mais recente: Patagônia Argentina. Foi fantástica! E o melhor: pela primeira vez eu entrei num avião com a certeza de que ele não ia cair (eu sempre tinha certeza que ia morrer, rsrs)!. E a viagem foi bem leve. Continuo reservando o hostel com antecedência (não custa nada, né?), mas dessa vez, chegando na primeira parada, a cidade de El calafate, eu perguntei o que tinha para fazer na cidade, ao invês de reservar tudo antes de sair de casa. Fiquei sozinha no quarto do hostel e foi divino! E fiz uma trilha sozinha em El Chalten e tenho certeza que, nesse dia, eu estava bem mais perto de Deus! Me senti totalmente conectada com a natureza e abençoada! Ainda voei para Ushuaia (dessa vez deu um medinho, mas o avião passa literalmente no meio das montanhas, rsrs). A estada em Ushuaia foi maravilhosa, fiz amizade com uma turma incrível de brasileiros, fora os estadunidenses, indianos, franceses, gente do mundo todo...que conheci!

Essa foi a viagem mais tranquila e onde eu tive apenas a certeza de que, enquanto a vida permitir, vou viajar, conhecer, me aventurar...e mesmo que eu tenha medo, eu vou superar, porque viajar não é algo que eu faço ocasionalmente, é a minha essência

domingo, 10 de março de 2013

Mulheres que viajam sozinhas


Eu amo viajar! Amo mesmo, troco qualquer coisa por uma boa viagem! Como estou solteira e tranquila, estabilizada profissional e financeiramente, sem filhos, compromissos ou dívidas (rsrs), resolvi que era hora de cair na estrada. Esse ano viajei em quase todos os feriados, na maioria das vezes sozinha.


A viagem solo é uma experiência única! Quando eu entro no avião eu literalmente largo tudo pra trás, é um momento só meu! E a partir daí eu faço mesmo o que me der na telha. É claro que é muito difícil não fazer amizades no caminho, mas sem grude, sem vínculo, ou seja, é legal conhecer pessoas, ir tomar uma cerveja com novos amigos, mas sem deixar de fazer o que dá vontade.


Ao contrário de muita gente, não me incomodo em absoluto de passar o dia sozinha, explorando uma nova cidade, conversando apenas com quem encontro pelo caminho, e sentar num restaurante, seja no almoço ou até no jantar, sozinha para saborear minha refeição. Muitas vezes, mesmo nos lugares mais turísticos, vejo olhares de curiosidade das famílias e casais. Não me perturbo, pelo contrário, sinto-me vitoriosa de fazer uma coisa que amo sem depender de ninguém!


O maior medo de quem viaja sozinha(o), pelo que posso perceber, é sentir a tal da solidão. Tenho feito algumas viagens solo e garanto que é muito difícil ficar 100% do tempo sozinha. Sempre conheço gente. Claro que algumas pessoas fazem amizade mais fácil, mas ainda que você seja tímida(o), alguém sempre vai puxar papo. Eu, na última viagem, quando ouvia o português (estava no Peru), chegava puxando papo sem constrangimento, os brasileiros geralmente são abertos, principalmente quando estão viajando.


Uma dica boa é se hospedar em albergues da juventude (hostels). É mais barato e a interação é garantida! Começar pelo Brasil também é mais fácil. Quanto mais línguas você falar, mais longe pode ir. Eu me viro com o espanhol e falo inglês, o que eu considero essencial pra viajar.


Os cuidados, aliás, são os mesmos em qualquer lugar do mundo: guardar bem dinheiro, passaporte e documentos. Ficar esperta com a câmera e atenta onde quer que esteja. Sair sozinha à noite apenas se tiver certeza de que está num local seguro (sim, ainda existem cidades seguras!). Na dúvida, pegue um táxi.


Viajar é uma experiência maravilhosa e poder fazer isso do meu jeito me traz uma felicidade única!